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Bem vindos! Esta é uma página de atualizações sobre algumas informações básicas do decorrer da minha investigação (e ensino).

No momento atual sou uma Marie Skłodowska-Curie Fellow (Harvard University/História, Brunel University/Inglês), responsável pela investigação das Relações Anglo-Ibéricas entre 1480-1680 e paralelamente Professora Académica na Brunel University em Londres.

A minha investigação é essencialmente focada na história dos livros. Investigo particularmente a produção de livros e a disseminação da propaganda no período inicial da história da Idade Moderna. Leciono sobre as relações Islâmico-Cristãs, literatura propagandística do período inicial da Idade Moderna, Shakespeare & os seus contemporâneos, bem como sobre a história dos livros. Já lecionei tanto em faculdades de Inglês como de História. (Em 2007, após sair da History Faculty at the University of Cambridge ingressei na Brunel University).

O título do meu atual trabalho de investigação, financiado pela Comissão Europeia, é ‘Re-shaping the Black Legend: Conflict, Coalition and the Press in Early Modern Europe’ [Reformulando a Leyenda Negra: Conflito, Aliança e a Imprensa no período inicial da Idade Moderna]. Conjuntamente com esta investigação, o meu interesse debruça-se particularmente sobre os debates acerca das Humanidades Digitais correntes, incluindo o futuro de – e acesso a- arquivos e livrarias digitais e análogos por toda a União Europeia e América do Norte.

Estou no processo de iniciar uma plataforma digital interdisciplinar de espólio académico de forma a criar um sistema de trabalho em rede vocacionado para individuais e instituições que se debrucem sobre qualquer aspeto relativo à história Anglo-Ibérica: ‘Anglo-Iberian relations, from the Medieval to the Modern’ [Relações Anglo-Ibéricas, da época Medieval à Moderna]. A plataforma estará online no outono de 2015.

Sou responsável pelo Religious History of Britain Seminar, 1500-1800 no Institute of Historical Research, Senate House, em Londres. Sou colaboradora no blogue The Guardian sobre pedagogia.

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Drama no período inicial da Idade Moderna

Entradas anteriores sobre o Período Inicial da Idade Moderna

História portuguesa e espanhola sobre a presença inglesa no período inicial da Idade Moderna: The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibir] (Parte 1)

Speak the speech, I pray you, as I pronounced it to you, trippingly on the tongue: but if you mouth it, as many of your players do, I had as lief the town-crier spoke my lines… O, it offends me to the soul to hear a robustious periwig-pated fellow tear a passion to tatters, to very rags, to split the ears of the groundlings, who for the most part are capable of nothing but inexplicable dumbshows.

Hamlet’s advice to the players. William Shakespeare, Hamlet (3.2.1-3, 7-10)

Se já alguma vez ouviu falar da peça The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibir], certamente ouviu falar nela como objeto de uma das piadas de Shakespeare em Hamlet – como sendo uma daquelas peças cheias de ruído e ‘dumb show’, objeto de chacota. Ben Jonson fez igual e abertamente troça deste trabalho (consultar The Poetaster, 3.4.346-8). Ancient Pistol foi, também ele, crítico à mesma (2 Henry 4, 2.4.176).

A peça The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibirde George Peele poderá não ter brilhado aos olhos dos seus contemporâneos pelo seu brilho poético mas continua a ser uma peça importante, nem que seja pelo seu uso magistral de efeitos visuais (muitos deles tornar-se-iam mais tarde sinónimos do teatro isabelino: membros do corpo em chamas, corpos decapitados, esventramento e sanguinolência a inundar o palco). Peele transformou o uso do ‘dumb show’ incorporando atores do enredo principal juntamente com a sua apresentação no Prólogo. A peça também é revelador no que diz respeito ao público inglês estar ciente dos – e interessado nos- eventos da história de Portugal e Espanha e na serie complexa de acontecimentos iniciados por um único dia de batalha no norte de África durante 1578.

Algum nível de snobismo pode envolver a peça pela sua teatralidade, pela qualidade do seu versículo e pelo facto de o conhecimento acerca dos acontecimentos que retrata poder ter diminuído em Inglaterra ao longo dos tempos mas, para o público de Tudor e Stuart, uma peça que detalha os acontecimentos que levaram à morte do Rei Dom Sebastião e a anexação de Portugal ao seu poderoso vizinho, era tão conveniente à época como popular. Tal como espero poder provar neste post bem como nos próximos deste blogue, Portugal era muitas vezes a lente por onde os Ingleses podiam contemplar a sua própria relação com Espanha.

A história da performance inicial da peça The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibir] é incompleta mas a peça deve ter sido escrita por volta de 1588/9. O mais provável é ter sido representada pelas companhias de teatro Lord Strange’s Men e Lord Admiral’s Men em 1590; o Henslowe’s Diary sugere que a peça foi apresentada a 20 de Fevereiro de 1592, com mais 13 atuações subsequentes tendo sido a última a 20 de Janeiro de 1593. (Acerca do debate em volta do nome da peça mencionado pelo Henslowe, consultar The Stukeley Plays, ed. Charles Edelman [Manchester University Press, 2005], p.23.) Uma versão da peça foi impressa por William Jaggard para Thomas Pavier em1605 (STC 23405). Um ‘enredo’ para teatro também ainda pode ser encontrado (British Library, MS. Add. 10,449, fol. 3. Ver Edelman, The Stukeley Plays, pp.21-2).

Contexto histórico:  ‘Batalha dos Três Reis’

A Batalha de Alcácer-Quibir teve lugar em Marrocos perto de Ksar-el-Kebir e Larache, a 4 de Agosto de 1578, sendo o resultado de uma luta de poderes. O Sultão Marroquino, Abu Abdallah Mohammed II, havia sido deposto e substituído por Abd Al-Malik I (seu tio) em 1576. O sobrinho do novo sultão fugiu para Portugal recorrendo à ajuda do Rei Dom Sebastião.

O jovem rei português ouviu a sua petição favoravelmente vendo isto como uma oportunidade para uma cruzada, algo que já ambicionava há algum tempo. Era também uma oportunidade para expandir os seus domínios e relações comerciais no Norte de África. Ainda assim esta aliança, proposta para que vencessem qualquer batalha pela supremacia, precisava de mais aliados. No natal de 1577, Dom Sebastião encontrou-se com o seu tio Filipe, em Guadalupe, para lhe pedir ajuda. Filipe não queria tomar parte de algo desse género e alertou o seu sobrinho para não se precipitar em algo tão irrefletido enquanto tão novo (e sem ainda ter sido pai de um herdeiro seu ao trono). Filipe ofereceu no entanto alguma ajuda com capital humano, transporte e mantimentos (embora haja quem, questionando as intenções de Filipe, tenha visto isto mais como um gesto simbólico que assegurava o destino de Dom Sebastião por ele já previsto). (Consultar Eric Griffin, ‘”SPAIN IS PORTUGAL / AND PORTUGAL IS SPAIN”: Transnational Attraction in The Stukeley Plays and “The Spanish Tragedy”‘ in Journal for Early Modern Cultural Studies, 10:1 [2010], p.98.)

O jovem rei embarcou na sua missão de ajuda ao sultão deposto, partindo de Lisboa por mar no verão de 1578 com um exército de 17,000 homens (que incluía muitos nobres portugueses), via Cádis, e posteriormente em direção a Marrocos. Dom Sebastião encontrou-se com Abu Abdallah Mohammed II e os seus cerca de 6000 soldados mouros em Arzila e o exército, em franca minoria (Abd Al Malik tinha mais de 60,000 no seu exército), marchou em direção ao seu destino.

Após quase quatro horas de combate, os portugueses e o exército de Abu Abdallah foram vencidos. Cerca de 8000 dos seus homens haviam sido mortos – entre eles muita da nobreza portuguesa que se havia juntado ao seu adorado rei nesta cruzada; milhares foram feitos prisioneiros. Apenas cerca de 100 homens sobreviveram e escaparam. Abd Al-Malik morreu também em combate mas as notícias foram cuidadosamente ocultadas pelos seus homens que manifestaram e seguraram a vitória em seu nome. Abu Abdallah morreu afogado ao tentar escapar à captura. Dom Sebastião foi o último a ser visto cavalgando em direção ao inimigo, e as histórias subsequentes em volta da sua morte e do lugar onde seu corpo estaria depois da batalha são inúmeras. Com a derrota de Dom Sebastião, Abd Al-Malik e Abu Abdallah, a batalha ficou rapidamente conhecida como ‘Batalha dos Três Reis’.

Abd Al-Malik foi sucedido pelo seu irmão, Ahmad al Mansur, Dom Sebastião foi sucedido pelo seu tio avô Henrique I, irmão de seu avô, o Rei Dom João III, que não viveu muito tempo. Filipe II, o tio de Dom Sebastião, uniu as coroas Ibéricas em 1580, uma União que perdurou até 1640. Filipe afirmava que os restos mortais de Dom Sebastião haviam sido encontrados e trazidos para Portugal sendo posteriormente enterrados no Mosteiro dos Jerónimos em Belém, Lisboa (somente após a União de Portugal a Espanha). Muitos foram os que não ficaram convencidos acerca da morte do jovem rei heroico em batalha dando assim origem ao “Sebastianismo” (um tópico para outra entrada).

Entre os europeus que se juntaram a Dom Sebastião na batalha havia não só portugueses e espanhóis como também italianos, irlandeses católicos, alemães luteranos e holandeses calvinistas. (Consultar A.R. Disney, A History of Portugal and the Portuguese Empire: From Beginnings to 1807, 2 vols. [Cambridge: Cambridge University Press, 2009], II, p.18.) Entre eles encontrava-se, também, Thomas Stukeley, um inglês.

Filho terceiro de Sir Hugh Stukeley (1496-1559), Stukeley era um mercenário que havia combatido em França e na Irlanda. Feliz por vender os seus talentos militares a quem mais lhe pagasse concedeu a sua lealdade a Filipe II de Espanha em finais de 1569 não pensando duas vezes em revelar segredos sobre a sua terra natal. Dom João de Áustria, na Batalha de Lepanto (7 de Outubro 1571), ofereceu-lhe o comando de três navios. É sabido que Francis Walsingham o tinha debaixo de olho sendo que Stukeley havia alertado a Inquisição Espanhola sobre as atividades de Oliver King, um espião inglês. Stukeley tornou-se parte dos planos de Espanha de invadir a Irlanda embarcando nessa missão por mar em 1578 somente chegando a Cadiz e não conseguindo prosseguir devido às más condições dos seus navios. E é nesta altura que conhece Dom Sebastião que lhe oferece a oportunidade de comandar o seu exército como parte da expedição a Marrocos. E é aqui que a sorte de Stukeley termina: ele é morto no inicio da batalha após ser atingido por uma bala de canhão que lhe arrancou as pernas.

Na peça The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibir], Stukeley é retratado como um renegado que cospe opiniões traiçoeiras e cuja arrogância e egocentrismo são projetados em palco enquanto se pavoneia falando mal de seu soberano. Através dele o público é confrontado com as ideias do período inicial da Idade Moderna acerca do nacionalismo e liberdade pessoal. Este é um mundo no qual, relembra-nos Peele, o desrespeito pela nossa terra natal e a autovalorizarão pode nada mais que conduzir à ruína. Testemunham o que pode acontecer ao traidor – como o Stukeley (na peça) – que pensa que ‘King of a molehill had I rather be / Than the richest subject of a monarchy’ (2.2.81-2) [ Rei de um monte preferiria ser/ Que o sujeito mais rico de uma monarquia]

O Rei de Portugal (Católico) respeita o poder e força do soberano Protestante. Também vê as ambições de Stukeley na Irlanda como fúteis, embora não consiga ver as falhas no esquema da sua própria cruzada. Quando em busca de ajuda na sua missão africana, Dom Sebastião joga com a opinião inflada de Stukeley sobre si mesmo mas também o avisa:

For Ireland, Stukeley? Thou mistak’st wondrous much,

With seven ships, two pinnaces, and six thousand men?

I tell thee, Stukeley, they are far too weak

To violate the Queen of Ireland’s right,

For Ireland’s queen commandeth England’s force.

Were every ship ten thousand on the seas,

Manned with the strength of all the eastern kings,

Conveying all the monarchs of the world

To invade the island where her highness reigns,

‘Twere all in vain, for heavens and destinies

Attend and wait upon her majesty.

Sacred, imperial and holy is her seat,

Shining with wisdom, love and mightiness.

(Sebastian’s advice to Stukeley, 2.4.98-110)

Sebastian’s powers of persuasion ultimately lead to Stukeley’s change of heart – and his downfall.

If honour be the mark whereat thou aim’st,

Then follow me in holy Christian wars,

And leave to seek thy country’s overthrow.

(Sebastian’s advice to Stukeley, 2.4.142-3)

Tal como Eric Griffin havia referido (‘”SPAIN IS PORTUGAL”‘, p.104), Peele concordou com John Foxe: só porque reivindicas o teu acto como cruzada, não faz dele sagrado, nem lhe garante sucesso. Já no Reinado de Dona Isabel, as cruzadas eram vistas como um problema, tal como Foxe afirmou em Acts and Monuments: ‘He that bringeth S. George or S. Denise, as patrons to the field to fight agaynst the Turke, leaveth Christ (no doubt) at home.’ (John Foxe, Acts and Monuments [London, 1570] STC 11223, p.872.) Stukeley, como podemos ver, jura a sua aliança a St. George no momento em que se compromete a ir para Marrocos (2.4.166). O homem que deposita a sua fé em santos e rejeita a sua terra natal não tem grande hipótese num palco isabelino.

Encenando a Batalha

Se a peça The Battle of Alcazar [Batalha de Alcácer-Quibir] foi escrita em ou à volta de 1588/9, então foi escrita num momento crucial para as relações Anglo-Ibéricas. A Armada espanhola foi derrotada em 1588. Em 1589, Francis Drake, John Norreys e Dom António tentaram provocar uma revolta contra o Rei Filipe para o remover do trono português. Isto terminou mal tanto para Portugal como para Inglaterra com grandes perdas financeiras para Inglaterra funcionando como sentença de morte à reivindicação do trono português por parte de Dom António.

A União pode ter-se afirmado mas a aliança de Inglaterra com Portugal manteve-se firme. (Isto, claro, também assegurava as trocas comerciais nos portos de Marrocos e do Império Otomano aos ingleses). Como referiram Jesús M. Garcia e Cinta Zunino Garrido ‘o conflito intensificou a inclemente hostilidade por um lado entre a Inglaterra Protestante e a Espanha Católica, e por outro, fortaleceu tanto as alianças Anglo-Muçulmanas como as Anglo-Portuguesas’. (Jesús M. Garcia and Cinta Zunino Garrido, ‘”As we are Englishmen, so are we Men:” Patterns of Otherness in George Peele’s The Battle of Alcazar’ in Jesús López-Peláez [ed.], Strangers in Early Modern English Texts [Berlin: Peter Lang, 2011], p.75.)

Um detalhe da única representação conhecida da batalha de Alcácer-Quibir in “Miscelânea” (1629) testemunho de Miguel Leitão de Andrada. Ilustra o exército português, numericamente inferior, prestes a ser cercado pelas forças islâmicas.

Na Partes 2 & 3 deste blogue, irei explorar as alianças Anglo-Portuguesas mais aprofundadamente tendo em conta as razões pelas quais o público Inglês ficou tão fascinado pelo destino do Rei português (e com o falhanço e morte de Stukeley).

Fim da Parte I

Leitura recomendada

Charles Edelman (ed.), The Stukeley Plays: ‘The Battle of Alcazar’ by George Peele and ‘The Famous History of the Life and Death of Captain Thomas Stukeley’ (Manchester: Manchester University Press, 2005)

Jesús M. Garcia and Cinta Zunino Garrido, ‘”As we are Englishmen, so are we Men:” Patterns of Otherness in George Peele’s The Battle of Alcazar’ in Jesús López-Peláez (ed.), Strangers in Early Modern English Texts (Berlin: Peter Lang, 2011), pp.75-108

Eric Griffin, ‘”SPAIN IS PORTUGAL / AND PORTUGAL IS SPAIN”: Transnational Attraction in The Stukeley Plays and “The Spanish Tragedy”‘ in Journal for Early Modern Cultural Studies, 10:1 [2010], pp.96-116

Hammood Khalid Obaid, Topicality and Representation: Islam and Muslims in Two Renaissance Plays (Cambridge: Cambridge University Press, 2013), chapter 1

David Trim, ‘Early-Modern Colonial Warfare and the Campaign of Alcazarquivir, 1578′ in Small Wars and Insurgencies 8:1 (1997), pp.1-34

Full text: http://elizabethandrama.tripod.com/battle_of_alcazar.htm http://purl.pt/14193

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